
duboutme
- November 11th, 22:56
Chegou às quatro e só poderia entrar às cinco. Pensou no que fazer. Entrou no prédio de sempre para ir ao café de sempre, que havia descoberto fazia exatamente três semanas. Entrou e pediu um café. Ficou lendo algo desinteressante, enquanto pensava em quanto tempo faltava. "Talvez dez minutos já tenham se passado", pensou. Olhou no relógio e só haviam se passado três. Tentou tomar lentamente o seu café, mas como era uma pessoa acostumada a fazer tudo rápido (e isso inclui beber e comer qualquer coisa), o máximo que conseguiu foi prender-se a duas linhas do texto desinteressante e esquecer o café por cinquenta segundos.
Perdeu a paciência, pagou seu café e saiu. Aí percebeu que só haviam se passado dez minutos. "dez minutos!" Resolveu acender um cigarro, já que agora era proibido fumar dentro do café. Fumou rapidamente, tentando fazer com que aquele cigarro durasse, no mínimo, sete ou oito minutos. Fumou-o em quatro. Sentindo-se culpada porque havia comido sobremesa, resolveu ocupar os minutos restantes dando uma volta no quarteirão, lentamente. Pensou que poderia descobrir novos nomes de ruas naquela parte da cidade, que poderia encontrar um amigo, um desconhecido ou uma velhinha qualquer que pudesse ocupar seu tempo com uma conversa. A única coisa que descobriu foram novas casas de estética, uma escola de mergulho e uma loja que vendia vestidos de noiva. Nada a interessava. Sua volta no quarteirão durou três minutos, e ela resolveu pedir o banheiro da escola de mergulho emprestado. O rapaz foi simpático, e apontou para que lado ficava o cômodo. Ela agradeceu, pretendendo ser rápida, caso contrário o rapaz poderia achar que ela tinha algum tipo de problema intestinal e que, por isso, precise usar banheiros urgentemente no meio da rua. Cansou de olhar no relógio. Resolveu sentar-se em uma mesa de uma padaria e esperar, praticando a arte da paciência. Não resistiu. Olhou novamente as horas. Ainda faltavam vários minutos. Seu celular tocou. Era ela. Disse que estava desocupada e que eu poderia subir. "Ela me espionou da janela!", pensou.
Tudo bem. Não queria esconder nada. Subiu rindo de si mesma, das arapucas que criara para sua própria diversão. Ela abriu a porta sorridente. Como sempre, sentiu-se desconforável deitando ali, queria deitar de lado, colocar a almofada no meio das pernas e descansar um pouco. Seu coração batia surpreendentemente rápido.
Como sempre, ela falou primeiro: "Foram semanas difíceis!" Havia esperado tanto por aquele momento que não resistiu dizer "Eu que o diga!". "Então diga-me", disse ela. "Ah, direi-te", pensou. Se bem que pensar sozinha naquele momento não era o ideal. Disse-lhe, então, tudo. Ou parte de tudo. O tudo, em partes. Uma parte do tudo, do tudo vazio. Uma parte do vazio. O vazio perdido no tudo. O tudo perdido em partes, o vazio em partes. As partes do tudo, as partes do vazio. Partes de partes, vazias. Partes de partes do tudo-vazio. O tudo perdido no vazio das palavras incompreendidas, dos desejos diversos de ser aquilo que se é, sendo outra pessoa. Do querer que de querer não tem nada, do nada que tem tudo do desejo. Do desejo que é o querer latente, o querer querente, louco e desvairado. Disse-lhe. Disse a boca escancarada, que permaneria muda e sofria do medo de tornar-se seca. Soldado seco. A boca seca do soldado que já atirou demais, que quer mais é tirar a farda, mas não sabe disso. Só sabe que quando se cansa, pensa nisso. Pensa em aposentar a farda pesada, o fardo duro que sustentou-se pelos próprios pensamentos, pelos próprios "quereres". Queres? Que queres, quereres? Que queres mostrar? Talvez o vazio. O vazio cheio do tudo repetitivo, do tudo que tem medo de ficar seco, o tudo já construído sob bases tão fracas, que mostram-se tão fortes que podem suportar ataques alienígenas. Talvez a boca seca do soldado velho queira dizer da secura, que já não pode mais suportá-la. Talvez o soldado medroso do seco, que veste a farda velha, queira mostrar-se e dizer-se. Dizer ser. E, quem sabe, ser de fato. Não só o outro, pelo outro. Quer ser a boca seca que pede água, a farda velha que pede o cabide, os pés frios e sujos que pedem sabão.
Saiu despenteada, como sempre. Seu coração batia surpreendentemente rápido. Desceu chorando por si mesma, das arapucas que criara para sua própria diversão, e que agora pareciam falhar. Agora o tempo corria muito rápido, e havia muito o que fazer. Subiu no ônibus e disse, com a voz interna, que havia se cansado. O cansaço que predispõe a ação, o berro que precisava ensaiar, ainda. A ação que antecede o berro. O berro que se esconde no medo da secura. Chorou durante todo o caminho para casa. Desceu e viu a mesma cena de sempre: catadores de papel começavam o seu turno, às sete da noite. Disse com sua voz interna que havia se cansado. Chegou em casa e largou tudo em qualquer lugar. Estirou-se na cama limpa, que estava longe de estar cheirando infância, mas já era algo. Precisava se contentar com esse algo. Antes, precisava descobrir esse algo, saber o que era, quem era, berrá-lo, desenterrá-lo e desarmá-lo. Assim que deitou-se escutou o telefone tocar. Nem pensou em se levantar. Pensou apenas que estava cansada demais para isso.