pessoas, pepinos e coisas.

isto é uma obra de (quase) ficção.

(no subject)
[info]duboutme
Estava lá, subindo, descendo, subindo ao contrário, descendo ao contrário as escadarias que me cercavam quando, de repente (não mais que de repente) você surge... com seu vestido azul, seu lindo vestido azul, naquele lindo semblante de quem sabe um pouco mais sobre a paciência. Você surge e me sorri. ME sorri! Sorri só pra mim, ao meu lado, mostrando um clarão da magnitude de uma porção de sentimentos. Sorri, mostrando saídas e desapegos necessários. Eu fico aproveitando esse momento, desejando nunca mais acordar... mas acordo. Claro, acordo porque você me diz que é hora de acordar, seguir, enfrentar mais um pouquinho da vida, pra depois me cansar novamente e aproveitar a reposição das energias merecida. É um ciclo. Sempre foi e sempre será. Ah, se eu pudesse colocar em palavras todas essas sensações...! Mas não, não posso. Colocar em palavras é pra muitos, e essas sensações são raras, únicas, são as que devem ser sentidas como tesouros, sentidas do início ao fim. Por aqui o corpo vai tentando se equilibrar, a mente vai tentando se ajustar ao caos, nossos trabalhos vão chamando pra vida, pra experiência de cada dia, pra prova justa, pra vitória certeira. E aí, durante a noite, repomos as energias, passeamos por aí procurando saídas, escadas, escadas e mais escadas. Não, nada de malas, por favor. Aí não precisamos das malas, né mesmo? Só aqui. E, ainda assim, são supérfluas. Sim, necessárias, mas são só a casca de tudo... e "aí" ninguém precisa de casca nenhuma.

Me deixa assim, com esse frescor de um domingo meio claro meio escuro. Me deixa assim, com o pensamento expandido, com o peito desabotoado.

so we rise off to make another run of it
[info]duboutme
another morning comes
left another record on
had a good night for all




pass the time, we say goodbye

(no subject)
[info]duboutme
Descobri que não existe tempo lógico coisa nenhuma. Na dor não existe tempo cronológico, muito menos lógico. Vem, fura e pronto.
Descobri o motivo de recomendarem tanto a análise.

Só preciso descobrir o motivo de ter escolhido trabalhar com a dor dos outros.

que queres, quereres?
[info]duboutme
Dominou seu desejo de parar na frente da casa dele, ficar esperando ele sair e, quando saísse, fingir um encontro casual. Dominou este desejo e vários outros. Dominou o desejo de ligar, debruçar a cabeça no seu ombro, encostar seus dedos na mão dele enquanto ele abria a porta. Dominou esses desejos todos, e dominá-los significava adestrar-se. Dominá-los, agora, era estar um pouco menos afobada, mas um tanto mais preguiçosa. Estava claro que dominar estes impulsos estava longe de ser uma tentativa bem sucedida de não-repetição.

Um dia, estava no ônibus, quando senti meu ombro esquerdo sendo cutucado por um dedo.
O dono do dedo sorriu pra mim. Eu sorri de volta.

-Pra onde vai?
-Como tem passado? - eu respondi
-É, bem... e você? Mas me diga, pra onde vai?
-Por que é que interessa tanto saber aonde vou descer?
-Na verdade, eu gostaria de saber.
-Eu fico logo ali.
-Eu também.


Ele não me disse mais nada, tampouco eu. Segurava o meu livro em uma mão e o jaleco na outra. Ele levava apenas a mochila. Imaginei a verdadeira resposta pra minha pergunta "Por que é que interessa tanto saber aonde vou descer?" Poderia ser qualquer uma. Meu coração batia descompassado, minhas mãos suavam, meu estômago dava loopings. Eu ainda estava cansada, já imaginava como seria a terça feira, a quarta, mas vivia, como que sem saída, um dia de cada vez. Vivia um dia de cada vez, um sentimento de cada vez, talvez. Talvez dois, ao mesmo tempo. Agora eu sentia vontade de vomitar. Durante o trajeto, eu não podia vê-lo, pois ele estava sentado no assento logo atrás de mim. Ele, pelo contrário, podia ver os detalhes da minha nuca nua, os fios de cabelo despenteados, a marca de suco que deixei cair na manga do jaleco, a penugem do meu rosto de perfil, meu reflexo na janela.
Levantei-me e desci, sem averiguar se ele estava atrás de mim. Meu estômago rodopiava, e minha cabeça resolveu fazer este mesmo movimento. Me senti suar frio. Então notei que ele caminhava ao meu lado. Olhou pra mim umas duas vezes, enquanto eu continuava no passo de sempre, nem rápido nem lento, nem desgostando nem gostando.

-Parece que você desceu uma rua antes.
-Sim. Acho que me confundi.
-Cansada?
-Muito.
-Reparei que você derrubou alguma coisa na manga do jaleco, por isso perguntei.
-Ah, foi suco. Estava um pouco desligada e nem percebi.
-Essa segunda feira poderia ser uma sexta.
-Poderia ser sábado. Por uns três dias seguidos.
-Poderia.
-Por que você tá me seguindo?
-Estou indo pra casa.
-Sua casa não é por aqui.
-Eu faço outro caminho agora.
-Faz um caminho mais longo?
-Faço.

Nesse instante nossas mãos se esbarraram. Eu já estava menos nervosa, mas o toque acidental dos seus dedos nos meus dedos foram o estímulo eliciador de todas as respostas desagradáveis. De repente, fiquei sem voz. Em menos de um quarteirão, nossas mãos encostaram-se de novo, só que dessa vez demorou mais.

-Desde quando mudou seu trajeto?
-Faz alguns dias.

Essa foi a última frase que trocamos. Meu corpo congelava por dentro, esquentava por fora, e eu sentia meu suor escorrer, meu estômago diminuir até ficar do tamanho de uma amêndoa. E tudo isso parecia transparecer. Ele levou sua mão até o meu rosto, e eu senti aquilo como se fosse tudo o que eu precisasse naquela segunda feira: como se tivesse tomado banho, colocado o meu pijama velho e feito um miojo, com a toalha ainda na cabeça. Como se, precisando de uma desculpa, eu pudesse freiar o meu desejo; mas não o dele.
Chegamos na porta do seu prédio. Eu não podia deixar que aquilo se estendesse.
Eu não poderia agir para não freiar o desejo dele, mas agir conforme o meu desejo. O que era o que? O quê? O que quero eu? Eu quero? Que queres? Que queres, quereres? Que diabos você pretende, desejinho hipócrita? Faz assim: pergunta pro querer, e então me responda. E não me venha dizendo que o querer não tem nada a ver com isso, e que na verdade eu mesma é que tenho que saber, porque eu já fiz uma confusão completa com essa história. Já sei. Você, desejo, pergunta pro querer onde é que ele quer te encaixar, se é aqui no meu peito, se é no peito do outro, se é no meu bolo de laranja, se é na puta que o pariu, e então me diga. A verdade, dessa vez, por favor!

-Obrigada por me acompanhar.
-É o meu trajeto, como te disse.
-Tá. Então obrigada por fazer do seu trajeto o meu trajeto. Mas agora eu preciso descobrir qual é o meu.
-Não é esse?
-Talvez. Eu preciso descobrir, como te disse.
-Quando souber, me avisa?
-Pra quê? O trajeto é meu.
-O seu trajeto passa exatamente onde passa o meu, esqueceu?
-Não. Quem descobrir primeiro, avisa.
-Enquanto isso cada um passa pelo seu.
-Que é o do outro.
-Que é o de tanta gente!
-É. Enquanto isso cada um passa pelo seu, que é o do outro, que é o de todo mundo.
-Até descobrir.
-Até.

"a solidão: doce ausência de olhares"
[info]duboutme
Chegou às quatro e só poderia entrar às cinco. Pensou no que fazer. Entrou no prédio de sempre para ir ao café de sempre, que havia descoberto fazia exatamente três semanas. Entrou e pediu um café. Ficou lendo algo desinteressante, enquanto pensava em quanto tempo faltava. "Talvez dez minutos já tenham se passado", pensou. Olhou no relógio e só haviam se passado três. Tentou tomar lentamente o seu café, mas como era uma pessoa acostumada a fazer tudo rápido (e isso inclui beber e comer qualquer coisa), o máximo que conseguiu foi prender-se a duas linhas do texto desinteressante e esquecer o café por cinquenta segundos.
Perdeu a paciência, pagou seu café e saiu. Aí percebeu que só haviam se passado dez minutos. "dez minutos!" Resolveu acender um cigarro, já que agora era proibido fumar dentro do café. Fumou rapidamente, tentando fazer com que aquele cigarro durasse, no mínimo, sete ou oito minutos. Fumou-o em quatro. Sentindo-se culpada porque havia comido sobremesa, resolveu ocupar os minutos restantes dando uma volta no quarteirão, lentamente. Pensou que poderia descobrir novos nomes de ruas naquela parte da cidade, que poderia encontrar um amigo, um desconhecido ou uma velhinha qualquer que pudesse ocupar seu tempo com uma conversa. A única coisa que descobriu foram novas casas de estética, uma escola de mergulho e uma loja que vendia vestidos de noiva. Nada a interessava. Sua volta no quarteirão durou três minutos, e ela resolveu pedir o banheiro da escola de mergulho emprestado. O rapaz foi simpático, e apontou para que lado ficava o cômodo. Ela agradeceu, pretendendo ser rápida, caso contrário o rapaz poderia achar que ela tinha algum tipo de problema intestinal e que, por isso, precise usar banheiros urgentemente no meio da rua. Cansou de olhar no relógio. Resolveu sentar-se em uma mesa de uma padaria e esperar, praticando a arte da paciência. Não resistiu. Olhou novamente as horas. Ainda faltavam vários minutos. Seu celular tocou. Era ela. Disse que estava desocupada e que eu poderia subir. "Ela me espionou da janela!", pensou.
Tudo bem. Não queria esconder nada. Subiu rindo de si mesma, das arapucas que criara para sua própria diversão. Ela abriu a porta sorridente. Como sempre, sentiu-se desconforável deitando ali, queria deitar de lado, colocar a almofada no meio das pernas e descansar um pouco. Seu coração batia surpreendentemente rápido.
Como sempre, ela falou primeiro: "Foram semanas difíceis!" Havia esperado tanto por aquele momento que não resistiu dizer "Eu que o diga!". "Então diga-me", disse ela. "Ah, direi-te", pensou. Se bem que pensar sozinha naquele momento não era o ideal. Disse-lhe, então, tudo. Ou parte de tudo. O tudo, em partes. Uma parte do tudo, do tudo vazio. Uma parte do vazio. O vazio perdido no tudo. O tudo perdido em partes, o vazio em partes. As partes do tudo, as partes do vazio. Partes de partes, vazias. Partes de partes do tudo-vazio. O tudo perdido no vazio das palavras incompreendidas, dos desejos diversos de ser aquilo que se é, sendo outra pessoa. Do querer que de querer não tem nada, do nada que tem tudo do desejo. Do desejo que é o querer latente, o querer querente, louco e desvairado. Disse-lhe. Disse a boca escancarada, que permaneria muda e sofria do medo de tornar-se seca. Soldado seco. A boca seca do soldado que já atirou demais, que quer mais é tirar a farda, mas não sabe disso. Só sabe que quando se cansa, pensa nisso. Pensa em aposentar a farda pesada, o fardo duro que sustentou-se pelos próprios pensamentos, pelos próprios "quereres". Queres? Que queres, quereres? Que queres mostrar? Talvez o vazio. O vazio cheio do tudo repetitivo, do tudo que tem medo de ficar seco, o tudo já construído sob bases tão fracas, que mostram-se tão fortes que podem suportar ataques alienígenas. Talvez a boca seca do soldado velho queira dizer da secura, que já não pode mais suportá-la. Talvez o soldado medroso do seco, que veste a farda velha, queira mostrar-se e dizer-se. Dizer ser. E, quem sabe, ser de fato. Não só o outro, pelo outro. Quer ser a boca seca que pede água, a farda velha que pede o cabide, os pés frios e sujos que pedem sabão.

Saiu despenteada, como sempre. Seu coração batia surpreendentemente rápido. Desceu chorando por si mesma, das arapucas que criara para sua própria diversão, e que agora pareciam falhar. Agora o tempo corria muito rápido, e havia muito o que fazer. Subiu no ônibus e disse, com a voz interna, que havia se cansado. O cansaço que predispõe a ação, o berro que precisava ensaiar, ainda. A ação que antecede o berro. O berro que se esconde no medo da secura. Chorou durante todo o caminho para casa. Desceu e viu a mesma cena de sempre: catadores de papel começavam o seu turno, às sete da noite. Disse com sua voz interna que havia se cansado. Chegou em casa e largou tudo em qualquer lugar. Estirou-se na cama limpa, que estava longe de estar cheirando infância, mas já era algo. Precisava se contentar com esse algo. Antes, precisava descobrir esse algo, saber o que era, quem era, berrá-lo, desenterrá-lo e desarmá-lo. Assim que deitou-se escutou o telefone tocar. Nem pensou em se levantar. Pensou apenas que estava cansada demais para isso.

(no subject)
[info]duboutme
Pintou as unhas de vermelho e mentiu. Mentiu o vermelho borrado, o vermelho assustado. Mentiu as unhas roídas, o espelho quebrado e as suas próprias mentiras.
Revezou-se fazendo coisas inadequadas. À uma da madrugada, fez um chá e teve insônia. Às duas, resolveu ler. Às nove resolveu ficar em casa, assistindo qualquer coisa na televisão. Às onze da noite, resolveu fazer um bolo. Um bolo sem a luz do dia não poderia sair bem, mas tentou. Recolheu seu lixo, nosso lixo, guardou lixos e recalcou outros. Sonhou com lixos, gigantes, geladeiras, portas enormes, mais gigantes. Sonhou, mas teve que acordar. Acordar, preparar o seu café, olhar pela mesma vidraça, enxergar um motivo e ir. Ir ao ponto de ônibus, esperar o ônibus, subir no ônibus, cumprimentar o cobrador, seguir em frente. Seguir em frente no corredor da sala, do quarto, do corredor branco e quente, seguir em frente por não poder parar. Parar de falar tanto, reclamar tanto, gritar tanto. Pedir pra sonhar mais, lembrar mais, falar menos, gritar menos, ser menos o que detestava ser. Apesar disso, deixar ser o detestável, de uma maneira tão sutil que quase não percebessem. Deixar o pequeno monstro sendo alimentado, mas aos poucos, com calma, de uma maneira tão sutil que talvez nem notassem. De uma maneira tão sutil que ela não precisasse mentir.

"Especially when it's on the roof of my mouth"
[info]duboutme
Cansei da repetição. Cansei da repetição. Por mais que não possa me cansar dela, por mais que ela seja um meio para a elaboração, hoje gostaria de mandá-la para a puta que o pariu, sutilmente. Meu caderno está cheio, minha cabeça está cheia, minha agenda está cheia, minha geladeira está vazia, e tudo o que posso dizer é que me cansei da repetição. Isso é temporário, eu sei bem. Mas gostaria de me cansar dela por um instante. Preciso desse momento de cansaço da repetição. Gostaria de instalar na repetição o modo "shuffle". Gostaria de me manter inerte às inerências escrotas que me colocam de frente ao acaso, de frente ao espelho, de frente pra própria e maldita repetição. Cansei do cheiro de cansaço que inala a repetição, do seu olhar expressando o novo, da sua cara sarcástica me fitando, sorrindo. Talvez isso seja produto da dor nas costas da minha analista, talvez isso seja produto de várias repetições várias vezes repetidas. Produto porque tudo é multiplicado quando é repetido. Agora as palavras saem fáceis, como se não fossem minhas. Eu gostaria que não fossem. Agora meu cigarro acaba mais rápido do que de costume, e eu me canso mais facilmente da velha repetição. Sim, o tema é a repetição. Eu repito sempre, meus temas são sempre os mesmos, meus títulos, por mais que apresentem o inesperado, expressam o velho novo. Talvez eu esteja tão nova, e já tenha me cansado de repetir.
"O que teria vivido exatamente e que alegrias de fato conhecera, e constatou com espanto que eram bem poucas essas alegrias. Sentia-se enrubescer sob a ação desse pensamento; sim, tinha vergonha: pois é vergonhoso ter vivido tanto tempo neste mundo e ter vivido tão pouco.
O que queria ele dizer ao certo quando afirmava que tinha vivido pouco?"
Tão pouco era tanto, nesse exato momento! Tão pouco era tanto que eu achei que não pudesse suportar. Quero mandar as repetições para o quinto dos infernos, se é que o quinto realmente existe, se é que alguém se importa com o quinto. Whatever. Talvez o quinto pouco me interesse, talvez o que as pessoas pensem do quinto expresse tão pouco de mim, e eu me deixe descrever por tão poucas linhas. Mas quero deixar claro que não é minha intenção descrever-me, por mais que tenha a certeza absoluta de o que estou fazendo é exata e redondamente isso. Mas como saber? Ah, eu sei. Eu sei que sei. E sei que repito. Por isso é que me cansa a repetição de mim mesma. São várias versões, várias idéias, vários temas, tempos, que descrevem o que sou eu, o que não quero da vida. Eu costumava ter mais certeza, eu costumava ser mais triste. Agora, a repetição me faz feliz. Que infelicidade possui essa discrepância! Estar feliz com o próprio destino é aceitar a repetição, conviver pacificamente com ela, casar com ela. Case-se comigo. Case-se comigo, repetição. Eu preciso repetir mais uma vez? Pois te digo, querida, case-se comigo, case-se, aceite agora!

Ah, a histeria me encanta. Me encanta a repetição que nos surpreende o inconsciente, que nos surpreende surpreendentemente.

(no subject)
[info]duboutme
Saiu de casa com a sensação de que queria ficar, voltou sentindo que deveria ir; ficou como quem quer ter férias longas de 2 meses. O que não sabia era que, indo, voltando ou ficando, seria sempre a mesma. As pessoas seriam as mesmas, e o papagaio continuaria escapando do puleiro. Porque as coisas só mudam quando vemos alguma mudança nelas. Podem não ter mudado nada, nadinha, mas se a mudança for olhada de perto, ali está uma nova forma de dispor os móveis na sala.

Ana tinha um amigo que se chamava Luís. Luís, em um dia de estupidez latente, disse para Ana tirar dos seus escritos o seu nome. Ana se apavorou, simplesmente porque não tinha o que responder. Achava aquela idéia tão estúpida e impensável que gostaria de enfiá-la na cabeça do seu amigo. Ana se apavorou porque nunca imaginou que alguém diria aquilo à ela. "Como alguém pode ser tão estúpido a ponto de me pedir uma coisa dessas?", ela pensava. Deixe-me explicar: para Ana era impossível retirar dos seus escritos qualquer emoção. Claro, se elas estavam lá era porque faziam algum sentido, mesmo que só pra ela. Mesmo assim, sentiu ódio. Queria matar Luís por pensar assim, por ser tão frio a ponto de não aceitar o seu nome em suas coisas. Não aceitar o seu nome em seus escritos era negá-la em sua vida. Negá-la em sua vida era não entender a importância que aquelas coisas todas jogadas e amontoadas em papéis tinham pra ela. Era não entendê-la, nem superficialmente. Ao mesmo tempo, Ana escondia todas essas coisas. E dizia o oposto de tudo o que realmente pensava. Ana se irritava muito com a idéia de que seu amigo fosse tão estúpido, e que ela ainda pudesse suportá-lo ao seu lado. Por que teria que suportá-lo? Por que teria que suportá-lo, sendo que ele não a entendia? Não entendia seu caderno de capa azul, então não a entendia. Era simples. Talvez só Ana pensasse assim, mas nem isso a faria mudar. Como alguém pode ser tão insensível a ponto de questionar assim, de forma tão dura, o motivo dela o descrever daquela maneira e de citar sua aversão por lagostas?
O que Ana não sabia era que algumas pessoas eram assim. Luís, rejeitando ou não as lagostas, continuaria sendo Luís. Tendo ou não fantasias diurnas, continuaria sendo Luís. Que se dane. Um dia disse isso cara a cara para Luís. Ele se revoltou, deu voltas em torno da mesa, derrubou água no seu vestido salmão de cetim, vociferou palavras horríveis, vociferou palavras ambivalentes, e a deixou. Simples, mesmo que só para Luís. Talvez só Luís pensasse assim, mas nem isso o faria mudar.

(no subject)
[info]duboutme
Arrumou suas coisas e saiu bem cedo. Enquanto esperava o táxi fumou um cigarro, olhando para o céu e pensando como naquele sábado fazia um lindo dia. Realmente. O céu tinha um aspecto fresco e incrivelmente azul. O sol brilhava tímido, ainda, realmente era cedo. O táxi chegou e ela foi até a rodoviária. Entrou no seu ônibus, tudo como sempre. Só que dessa vez era diferente: estava indo sozinha, e não ia encontrar ninguém. Gostaria de ver seu pai, sua irmã, ou quem sabe aquela amiga que não via desde o colegial. Mas não, dessa vez iria sozinha. Não sabia ao certo, mas talvez precisasse de um tempo para molhar seus pés no mar e depois recheá-los de areia. Talvez precisasse de um tempo só pra saber que ainda restava algum. Era fogo e água, tudo ao mesmo tempo. Uma faísca provocaria um incêndio, e uma gota de água bastaria para apagá-lo. Assim passou. Passando, deixando passar, passeando nos confins de tudo o que rejeitou sentir. Dessa vez sentiu tudo intensamente, porque estava sozinha e tinha que dividir seu sentimento apenas com o despertador, que fazia seu corpo sacudir todos os dias às 7 da manhã. Dessa vez atirou-se da janela levando consigo um páraquedas, cor de laranja. Dessa vez preferia conversas à cobranças, alhos à bugalhos, maçã ao invés de pêra. Ah, chega!, deixou escapar enquanto era invadida por todas essas comparações.
Sentou, então, sozinha à mesa do café. Comeu pão, tomou café, pousou os olhos ainda sonolentos no jornal, leu qualquer coisa, tomou mais café. A tv estava ligada, jornal. Lá fora uma brisa que daria margem a uma preguiçosa leitura deitada na rede. Não deitou na rede, mesmo tendo vontade. A rede estava longe, bem longe. Não entregou-se à preguiça, mesmo desejando isso secretamente.

Saiu, e imaginou como seria se estivesse saindo para viajar.

O sal da saudade
[info]duboutme
A saudade tem gosto de sal, de vez em quando.
Algumas vezes é adocicada, levemente, dando vontade de cozinhar imaginando que tenho os olhos de alguém olhando pra mim.
As vezes do sal são amargas, trazem olheiras e um dia cinza.
Eu preciso cozinhar e ir trabalhar, assim mesmo. Mesmo sem ter esse olhar pousado em mim, o da saudade adocicada. Mesmo tendo nos lábios algum gosto de sal. Mesmo o jornal dizendo que vai chover, e muito, esta tarde.

(no subject)
[info]duboutme
Pegou o ônibus e sentou em qualquer lugar. Na verdade, escolheu bem o seu lugar. O último do lado direito, da última fileira. Ali não precisaria levantar para dar o seu lugar à alguém mais velho. Aquele dia não queria fazer aquilo, e além do mais, existiam muitos acentos vagos. "Eu também tenho o direito de sentar-me, pois tenhos os joelhos esfarelados" pensou.
Quando chegou subiu as escadas, e sentiu que o seu joelho realmente doía. Tentou subir mais devagar, mas ele continuava doendo. Tentou subir um degrau de cada vez. Não adiantou. Subiu então os degraus como uma pessoa normal os subiria, cada perna em um degrau, e assim estava bem. "Já que eram podres mesmo, um lance de escadas a mais não fará diferença" Talvez não fizesse.
Ao terminar sua sessão, desceu. Uma perna em cada degrau, normalmente. Como se descer um degrau de cada vez fosse o estranho, e descer um degrau de cada vez, o comum. Sentiu-se culpada por sentir raiva, por estar ressentida, por pensar determinadas coisas. Sentiu-se culpada, e ninguém poderia entender. Talvez uma só pessoa. Sentiu raiva da raiva de sentir raiva. Sentiu raiva por tudo o que nunca disse, por nunca dizer o que a incomodava. Sentiu raiva mas sentiu-se bem. Era raiva, como qualquer outro sentimento. Pegou-a para criar. Cuidaria e alimentaria a raiva, depois, devolveria no mesmo lugar onde a encontrou.

(no subject)
[info]duboutme
Não queria tanto a realidade. Às vezes era dura e áspera. Chuvosa, de vez em quando. Mas era ela. A realidade ou a irrealidade era assim: como eu estou vendo agora. A realidade ou a irrealidade, como disse, estão nuas, paradas na minha frente! O que faço com elas? Corro? Minto? Eu já disse algo parecido... certamente disse. Se a realidade é sempre a mesma, somos todos iguais? Sou sempre a mesma, você é sempre o mesmo? Já falei sobre o cansaço de mim mesma, também. Já falei de tudo o que já foi, do que é e do que vai ser. Paciência para as minhas palavras soltas e pros pensamentos desconexos, e ainda assim, tão unidos! Paciência para a mesma cama, com o mesmo jogo de lençóis, para a mesma cortina desbotada, para o mesmo cenário que vejo da minha janela, para o mesmo semáforo bipolar. Paciência, porque não sei quando vou me cansar. Talvez nunca, porque meus olhos possuem o dom de ajustar o foco de vez em quando, mesmo que a janela, o jogo de lençóis e a cortina sejam os mesmos.

Depois da chuva, mais chuva. Menti a chuva, menti meus pés molhados, menti e continuo mentindo. Mesmo o que fica guardado só pra mim. Sim, isso é possível. Ainda assim, pensei no que mentir (ou omitir, omitindo-me) sobre certas coisas poderia me fazer feliz. Ai, que duro dizer a felicidade assim; enquanto caminho com os pés gelados, segurando um guarda chuva fechado, e por precaução não piso na poça d'água. Mas disse. Não tenho medo de dizer, aquilo que digo pra mim é mais forte do que as mentiras que digo por aí. Já me basta.
Fui ao supermercado comprar necessidades básicas. O empacotador resolveu colocar todos o ítens pesados em uma só sacola, que apesar de pesada estava confortável. Saí do supermercado segurando as duas sacolinhas, sem poças d'água, sem os pés molhados. Apesar do vento gelado, eu poderia ter caminhando durante horas. Talvez minutos, minutos que se travestiriam de horas. Minutos preciosos estes, os que travestem-se de horas.
Leite, um vidro de conserva, mocotó, doritos e um refrigerante verde. "Nada mal, pra quem não tinha um tostão no bolso" - pensei.
Então pensei no que seria eu, carregando sacolas com ítens difusos, diversos, quase anacrônicos. Então pensei de novo em quem seria eu. Ah, como me encantam as filosofias de supermercado. Pensei, por fim, que libertar-se não é fazer o que nunca fez ou comer o que nunca comeu, é saber o que gosta realmente de fazer ou comer, seja lá o que for. Mesmo que ainda estejamos todos em processo de descobrimento.

(no subject)
[info]duboutme
Desenvolveu então uma úlcera gástrica. Havia passado muitos dias em constante estresse, com repetidos pensamentos obsessivos, o que chegava a ser até um pleonasmo. repetidos pensamentos obsessivos. Não sabia lidar com situações que exigissem pensamentos novos, idéias novas, pessoas novas. Não sabia falar em público e isso a aterrorizava. Não sabia convidar alguém para ir ao cinema, para dividir o canudinho. Então desenvolveu uma úlcera gástrica. Chegava até a sentir seu rosto ruborizar em alguns momentos do dia, sentia seu sono agitado, sonhava com malas, viagens, e milhares de edredons que tinha que dobrar, embalar e levar embora. Sentia suas mãos formigarem, seu estômago corroer. Sentia-se inundar de pensamentos, afogava-se e prendia-se a eles. Os mais úteis não duravam mais do que cinco minutos; então restavam-lhe os inúteis.
Começou a notar, então, que possuía feridas avermelhadas por todo corpo. Feridas com um aspecto esquisito, que coçavam. As feridas tinham, em média, um tamanho pequeno; aparecendo apenas algumas maiores. Tendo estas, mais ou menos de 5 a 6cm. Algumas delas, muitas vezes, passavam dias despercebidas. Sem coçar ou incomodar. Mas só de olhar pra elas, sentia uma vontade louca de tocá-las. O toque acaba se transformando em coceira. A coceira resultava em feridas.

Assim tem passado seus dias. Divertindo-se com as feridas espalhadas sobre seu corpo.

Certos dias, acordava e encontrava na cama marcas de sangue. Como se uma caneta de tinta vermelha estivesse estourado durante a noite. Eram as feridas, que coçavam durante a noite. Dentro de uma semana, seus lençóis limpos já haviam se esgotado. Passou, então, a dormir sem lençol na cama. Isso só piorou as coisas, porque o colchão era áspero e fazia com que as feridas raspassem nele durante a noite.
Passou a não dormir. Não tinha mais sono. Aquelas feridas a assustavam. Em poucos dias, ela estava acabada. Com olheiras enormes, pálida e repleta de feridas avermelhadas. Tomou alguns remédios durante esses dias, alguma coisa que fizesse passar a coceira. A coceira crônica passou. O que continuavam eram somente os espasmos de coceiras durante o dia. Ás vezes, estava em algum lugar público e tinha vontade de se coçar. Não havia meios de fugir. Passou a não sair de casa. Pensou que estivesse morrendo. Mas não estava. Algumas feridas começaram a desaparecer, com o tempo. Outras espocavam todo mês. De tanto aparecerem e coçarem, elas espocavam e se transformavam em uma ferida maior, de cor roxa.

Chegou a conclusão de que era alguma coisa contagiosa, então decidiu não sair mais de casa. Pedia as compras, o gás, a água. Não viu a rua durante muito tempo. Não tinha vontade de limpar a casa, e tinha medo de contratar uma empregada que percebesse seu problema e se afastasse. Não tinha vontade de nada. A coceira já não incomodava, ela a tratava com naturalidade. Mas teve medo de ir ao dermatologista e descobrir uma doença fatal. Preferiu isolar-se completamente.

No primeiro dia de isolamento, pensou em se matar.
No segundo, em beber até cair.
No terceiro, em voltar a ter uma vida normal.
No quarto, em pedir ajuda.
No quinto, em ir ao médico.
E no sexto, conformou-se.

Deus fez o mundo em sete dias. Ela refez a sua vida em seis.

simplicidade
[info]duboutme
Não. Lúcia não sabe amar. Tentou diferentes formas, e tem a certeza de que não sabe amar, é inábil para tal tarefa. Não culpa ninguém, muito menos sua mãe. É algo inato. Nunca soube amar, não sabe o que é isso. Desconfia que seja algo parecido com o que vê nas novelas e lê nos livros, mas não tem certeza. Sabe que ama algumas coisas e algumas pessoas, mas não sabe o mecanismo do seu amor, não o entende. Parece que já nasceu amando seu bichinho de pelúcia, seu pinico, seu pai, suas sandálias. Não se imagina sem amar essas coisas. Então só tem uma opinião: amar é inato. Já nasceu amando tudo isso, nessa ordem. Não sabe como foi que construiu esses amores, apesar de saber que são diferentes e têm intensidades distintas. É só o que sabe sobre o amor. E acha que se basta ser assim, amar assim. Acha que um dia vai ter um namorado, mas não imagina qual e como será o amor que sentirá por ele. Não sabe se será o amor que sente pelo pinico, ou pelas suas sandálias. Lúcia só conhece o amor, apesar disso. Ou ama ou não ama. Aquilo que ama, não sabe definir e explicar o porquê, não sabe a lógica que existe (se existir alguma) por detrás dele, não sabe defini-lo em uma fórmula matemática e nem entende seus mecanismos; só sabe que ama. Aquilo que não ama, simplesmente não ama. Sem desdém ou preconceitos. Ama suas sandálias, seu pai, seu pinico, seu bichinho de pelúcia, sim. Não ama o resto, por enquanto.

questionamentos à parte
[info]duboutme
Quero deixar de lado. Ali, no canto esquerdo, por favor.


É atualizado com frequência pensamentos à parte. É atualizado com frequência a quantidade de tempo que perco. Perco? Logo que me mudei, achei tudo uma grande merda. Logo que me mudei conheci alguma quantidade de pessoas que me fizeram companhia. Logo que me mudei me vi mudada. Ok, essa é uma velha história, uma velha história contada com as mesmas palavras, siglas, méritos e imperfeições. É reconfortante saber que sempre será a mesma. A MESMA. Agora assusta. Mas é bom, porque assim vou me acostumando. Com a casa, com as mudanças, comigo mesma. Eu mesma, sempre. Cansem, podem cansar, vocês. Eu que não posso. Já pensou? Cansar-me de mim mesma? Seria um tédio aterrorizador, algo suicida. Não, não posso me cansar de mim. Talvez implore para que não se cansem, mas mesmo que se cansem, tenho que me manter firme, no meu incansável cansaço. Não posso me cansar, e isso é fato.

Meu olhar estava parado, todas as noites, sobre o mesmo livro. Eu o já havia lido várias vezes, e nunca me cansava. Era como descobrir uma nova faceta da minha própria personalidade em um personagem. Era como se eu nunca me cansasse, assim como nunca me cansava de mim mesma. Era bom saber, sem sair do lugar. Quando se tem que arrumar as malas, partir e só então saber, requer tempo e gera cansaço. Era sempre bom saber sem sair do lugar, sem tirar as roupas velhas do guarda roupa, sem se mexer. Pobre de nós. Como se saber exigisse tão pouco!
Eu só quero aquilo que exige a mudança, a arrumação das malas, o estômago roncando, rodando, as quatro garrafas de vinho vazias.

mudez
[info]duboutme
Na minha mudez está o grito, o choro compulsivo, as palavras curtas. Na minha mudez estou eu.

Ele abriu a porta. Eu já estava sentada, com os pratos em cima da mesa, os talheres, os copos. Ele não disse nada, tampouco eu. Levantei-me e fui tirar o que restava do almoço da geladeira. Ele colocou a mochila em cima do sofá e sentou-se. Olhou-me sem querer perguntar nada, e eu também. Ainda imaginei se tudo o que eu pudesse pensar a seu respeito fosse fantasia, loucura ou simplesmente mentira. Dissipei-me desses pensamentos, eu preferia assim. Algum benefício deve ter, a curto prazo. A longo prazo é outra história. O longo prazo pode durar dois, três, quatro dias. Chega, não quero pensar no longo prazo. Cansei-me da espera. Cansei-me da mudez das minhas palavras, ou da eloquência do meu falar. Extremos. Extremos almoçando juntos uma comida fria. A única coisa que se podia escutar eram os talheres debatendo-se um sobre o outro, às vezes o garfo sobre a faca, às vezes a faca sobre o prato. Comemos calados. Eu queria puxar a toalha da mesa e jogar tudo no chão, sujar tudo. Mas eu não estava num filme, e provavelmente eu seria quem iria limpar o chão. Permanecemos mudos, comendo. Eu o servi de suco, derrubei um pouco na toalha. Aquela mancha me importunou por alguns instantes. Logo larguei a mancha, e pude reparar no seu olhar faminto, comendo como quem não se alimenta a três dias. Mas calmo. Eu comia devagar, quase sem sentir o gosto da comida, e isso dava a impressão de que eu estava calma. Será que ele estava nervoso? A mudez respondeu-me que sim. Eu contrariei-a, e insisti que a nervosa ali era eu, não ele. Dessa vez as mãos dele responderam. Ali, atadas sobre a faca e o garfo, tremiam ao pegar um pouco mais de comida e levá-la até a boca. Eu tive vontade de jogar fora toda a comida. Será que ele estava gostando? Se sim ou se não, estava mudo, e isso quer dizer alguma coisa. Porque a partir do momento que se fala, perde-se. Perde-se a palavra falada, que antes poderia ter passado despercebida dentro da boca. Perde-se a oportunidade de decifrar as mãos, os olhos, os fios de cabelo eriçados com o vento que entrava pela sacada. Perde-se a oportunidade da mudez. Que é única. Mas só pode com a mudez quem sabe o que ela significa. Quem a conhece profunda e intesamente. Só pode com a mudez quem entende que o outro entende o que significa a mudez e a respeita: por si próprio e pelo outro. A mudez não pode ser sozinha. Ela é um par, feita de pares. Opostos, mas ainda pares. Não pode com a mudez quem a cultiva sem saber, sem pensar, mas principalmente sem sentir. Porque a mudez é coisa que se sente, e quase se escuta. A mudez do tintilar dos talheres e dos maxilares mastigando é única, mas só pode sabê-la quem sente. E sentir é pra poucos.
Depois de comer levantei-me e levei o prato até a pia. Peguei um cigarro e sentei-me de volta na mesa, com a mudez dele. Com a nossa mudez. Não se pode abandonar a mudez, simplesmente. Ela não pode ser escutada de repente. Exige tempo, perseverança e romantismo. Enquanto tragava o cigarro, com uma das pernas apoiadas em cima da cadeira, olhei-o fixamente. Seus olhos me procuraram por um tempo, a nossa mudez se encontrou por um instante. Mas só por um instante. Porque a mudez dos olhos também não pode ser sustentada extensivamente. E só sabe disso quem sabe a intensidade que a mudez dos olhos possuem. E só poucos sabem disso. Ou sabe ou não sabe, na mudez não existe o meio-termo. A mudez exige sentimentos, e sentimento exige pouco. Como é preciso exigir mais, a mudez entra em cena. Sutilmente, só a percebe quem a conhece previamente. Ou conhece ou não conhece. Pode ser uma dedução. Eu deduzo que a nossa mudez chocou-se, olhou-se, e partiu-se; partindo. E esse é o exato motivo da mudez: ser efêmera, e ao mesmo tempo permanente. Nossa mudez chocou-se, olhou-se, partiu e ficou.

"só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa"
[info]duboutme
Quando subi as escadas, reparei que meus pés não pareciam parte do meu corpo. Estavam sujos! Há quanto tempo eu não sujava meus pés? Há quanto tempo não ia pra chuva sem um guarda-chuva? Por quanto tempo esperei?

A sensação de ter os pés sujos me fazia tão bem que o meu desejo era dormir assim. Com os pés sujos de lama, a roupa molhada da chuva, a maquiagem borrada. Mas mesmo que eu lavasse os pés e fosse para a cama exatamente como todos os dias estava acostumada a ir, a sensação permaneceria. Deitei-me, com os cabelos lavados, o rosto e os pés limpos. Choveu por muito tempo, tanto tempo que nem sei dizer quanto. Eu só escutava o vento balançando a minha janela, as portas tremendo, a chuva caindo diretamente no vidro. Pensava também nas roupas que estavam no varal, lá fora, na chuva. Pensei em levantar e salvá-las. Pensei e não o fiz. Por que diabos eu deveria tirar as roupas da chuva? Por quanto tempo tirei as roupas da chuva? Não as minhas. Eu não me questionei. Simplesmente as deixei lá, tomando vento, tomando chuva, tomando forma. E eu adormeci, tão fácil quanto um bebê que acaba de mamar. Adormeci e gostaria de cair no sono dessa maneira todas as noites em que eu não quisesse mais pensar, nem ser, nem saber. Mas agora, quando eu me lembro da chuva daquela noite, do vento, dos pingos pingando na janela e das roupas no varal, já não é a mesma coisa. E talvez eu não caia no sono do jeito que imaginei. Talvez eu nem caia. Além disso, agora nem existe mais a chuva. Nem mesmo aquela da noite passada. Agora o sol se esconde rapidamente atrás de uma porção de algodões.
Não quero que esse dia acabe nunca.

é melhor ir dormir
[info]duboutme
É melhor ir dormir.
Quando a placidez dos pensamentos mostra-se inteiramente, quase como alguém que tira a roupa para entrar no banho e nem se dá conta disso, é melhor ir dormir.
Dormir evita analogias diversas. Dormir nos evita transtornos irreais, porque no son(h)o tudo que se mostra é assim, como é; e não cheio de amarras e bizarrices que nos envolvem quando estamos "acordados". Se bem que: o que é estar acordado? Ser acordado significa o mesmo? Lá vão analogias, as montagens, os filmes imaginários.
De vez em quando eu prefiro as realidades sinceras, claras e bizarras da vida durante o sono. No sono se sonha, no sonho se realiza desejo, já dizia Freud. Mas não é sobre Freud que eu quero falar. Boa noite.

(no subject)
[info]duboutme
Quando desci os três lances de escada, quase cambaleando, percebi que a minha bexiga estava cheia a quase duas horas. Pensei em voltar e pedir o banheiro dela emprestado, mas não, essa não seria uma boa frase. Permaneci deitada em seu divã por volta de uma hora e dez minutos, observando os quadros pregados eternamente na sua parede branca, e sua bolsa bege sobre a mesa; e me pareceram três horas. Tive um ataque súbito de riso quando brincamos com a expressão "mosca na sopa", veja só que alegria! Brincar com a analista! Ê vida boa (desculpe aos não analisandos, mas fica difícil compreender a dimensão disso quando não se faz análise)!

Enfim. Desci e o tempo ainda estava quente, mas lá fora tínhamos ar. Ar fresco e puro. Tudo que eu precisava. Depois de apanhar um cigarro dentro da bolsa e torcer para que o meu isqueiro velho funcionasse, quase machuquei meu dedão tentando acendê-lo. De repente, enquanto estava lá quase implorando por um milagre do isqueiro, ouvi "Isqueiro, amiga?" Era uma moça, cabelos compridos, estilo despojado. Adorei-a. Eu disse, em um tom quase cansado "Ah, quero sim! Obrigada!" Fiquei lá esperando por mais um tempo. Imaginei, de súbito, você descendo a rua e vindo me levar pra casa. Imaginei até nos dois andando juntos, mãos dadas. Logo acordei. A chuva começou de leve, uma mãe passou com seu bebê no carrinho, o bebê me deu um aceno com a mãozinha descoordenada, eu devolvi o aceno, começou a chover mais forte, tive que entrar, um casal chegou de moto e discutiram um pouco enquanto a moça tirava o capacete, a chuva se tornou uma tempestadeevocênãoapareceu.
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(no subject)
[info]duboutme
Liguei em uma péssima hora. O telefone chamou 5 vezes, uma voz rouca atendeu, chamou pelo seu nome e subitamente, ouvi o telefone cair da mão da voz rouca. Ouvi um cachorro latir, a televisão também deveria estar ligada. Demorou pra me atender. Ouvi muitos ruídos, de uma casa cheia, porém, turbulenta. Acho que por um momento pude ouvir a batedeira funcionando.

-Alô.
-Alô. Oi!
-Oi...
-Pode falar?
-Parece que atrapalhou?
-Sim, de alguma maneira, sim. Desculpe.
-Tudo bem. Eu já ia parar.
-Parar com o quê?
-Com o que estava fazendo.
-Você estava MESMO fazendo alguma coisa?
-Sim, ué.
-Então eu atrapalhei MESMO?
-Sim. Ah, não. Sei lá. Nem tanto. Ok, um pouco.
-Imbecil.
-Quê?
-Nada. Você recebeu o meu recado?
-Que recado?
-Porra! Tu não é acostumado a prestar atenção nas coisas?
-Não recebi seu recado.
-Eu sei. Eu percebi.
-E?
-E o que?
-O teu recado. O que dizia ele?
-Ah, agora já passou.
-Pff!
-"Pff?"
-Então não era importante.
-Era muito importante. Importantíssimo. Um pouco importante.
-Quase nada importante.
-Sua gradação não leva a nada.
-Nem essa tua ligação.
-Ok. Eu deveria falar sobre o que se tratava o meu recado. Ou melhor, o teu, né. Mas eu não vou te dizer. Quero mais é que tu se mate de curiosidade. Além do mais, eu acho que tu recebeu ele sim e não quer dizer. Aliás, não me importa. Tu não vai entender nada mesmo.
-Tudo bem. Não quer falar não fala. Vou voltar pro que tava fazendo. Tchau.
-Boa sorte no teu serviço doméstico.

Ouvi o telefone sendo desligado na minha cara, lentamente. Não precisariam entender que eu tinha passado a tarde toda no sol, em uma fila maldita de um banco, pra chegar em casa e não ter um só palito de fósforo dentro da caixa. Porque só um café me salvaria. Deixei. Deixei com que pensasse. E, mesmo sem pensar, já era alguma coisa. A ferida depois de tocada nunca mais é a mesma.

Resolvi me recompor e tomar um banho. Afinal, fazia dois dias desde o meu último. Peguei uma toalha nova, que não estava cheirando amaciante como eu almejava; aliás, nenhuma das minhas toalhas conseguia ter o cheiro das toalhas que a minha mãe lavava. Me enxuguei com a toalha meia-boca mesmo, tudo estava meia-boca naquele dia. Inclusive eu. Detestava essa expressão e usei-a com frequência. Me troquei e fui comprar fósforos. Só fósforos. Voltei, e então pude acender o meu fogão-amigo com apenas uma riscada do fósforo na caixa. Ah, a modernidade. Já estava mais calma. Esperei a água ferver e depois de encaixar cuidadosamente o coador de café na garrafa, cultivei um dos meus maiores prazeres: ir jogando a água fervente dentro do coador e ver o pó de café borbulhar, e inclinar um pouco a cabeça para sentir aquele cheiro mais perto do meu nariz. Eu gostava de fechar os olhos quando fazia isso, também. Após essa pequena terapia, peguei minha xícara preferida e fui sentar-me. Cruzei as pernas e quando ia dar o primeiro gole no meu café, ouvi a porta chamar. Ou melhor, alguém na porta chamar. Ou o porteiro com alguma caixa surpresa. Eu sempre estava esperando caixas surpresas, desde os meus 6 anos de idade. Gritei "quem é?" e esperei resposta. Nada. Gritei novamente. Imbecil. Levantei-me e fui até a porta. Abri. Ninguém. No chão, em cima do tapete imundo "cor de poeira" encontrei um papel. Achei bizarro imaginar que poderia ser um atentado de morte ou um "último aviso de cobrança". Eu reconheci aquele papelzinho. Reconheci a letra. Reconheci a caneta com o qual foi escrito.
"Não consegui a porra do emprego. Acho que nunca mais vou trabalhar. ps: fiz uma droga de torta demorada, e adivinhe: queimou. Divido contigo se tu quiser."

Era o meu recado. Quase um pedido de casamento temporário. Recebido. Lido. Tímido.

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